Se a morte não existisse toda a intensidade da vida desapareceria

A morte é um tema raramente discutido ou explorado. Apesar disso, a sua importância para a felicidade das pessoas é tremenda. Para além de ser um dos maiores mistérios existentes, é um dos agentes mais influentes na vida que amamos. Pode parecer estranho mas a morte tem o poder para nos fazer felizes. Há quem diga que o medo de morrer nasce do amor que temos pela vida.

Se a morte não existisse, toda a intensidade da vida desapareceria levada pela protelação e pela procrastinação. Tudo se tornaria previsível, feito de forma mecânica e sem risco. A criatividade desvanecia-se face ao desejo desmesurado pela estabilidade. Todos desejamos menos desafios e mais conforto. Menos riscos e mais certezas. Talvez esta visão seja um pouco limitada no que diz respeito à felicidade do homem. A tendência da mente humana é para a compreensão lógica mas se o mundo for um plano instável a mente vai pressionar a pessoa na procura de estabilidade. Uma vida reservada ao prazer e ao conforto é monótona e limitada e fica exposta a uma separação dolorosa.

A separação é a morte e a dor surge de um forte apego à vida. Apegamo-nos inevitavelmente áquilo que todos os dias acordamos associados mas essa não é a nossa mais profunda verdade. Há evidências mais do que suficientes que comprovam existir uma clara diferença entre o que somos e o que é o nosso corpo ou mente.

A verdade sobre quem somos só pode ser reconhecida por cada um de nós. A morte não é uma coisa feia. Ela faz parte da vida e é mais bonita quanto mais for aceite. Quanto mais colocarmos a morte em todos os momentos, mais percebemos que ela está sempre presente e que a sua influência esteve sempre lá. Esta influência, que é naturalmente negada pela nossa mente, limita a nossa capacidade para receber a felicidade que a morte tem para nos dar.

Tecnicamente, a alegria que é possível sentir através da aceitação e da concepção da morte deve-se à compreensão do seu papel na nossa vida. Para além da realização que a morte pertence ao processo da vida e que tudo o que acontece será esquecido através da morte, a compreensão de que a vida tem realmente um fim e que as oportunidades não se repetem é um grande impulso para viver intensamente. Se tudo se reduz a nada, nem mesmo a memórias, uma vida plena faz mais sentido do que uma vida baseada na contenção ou na prevenção.

Freud afirmava que a incapacidade do ser-humano conceber a sua própria morte o fazia viver como se fosse viver para sempre.

Todos temos dificuldades em tomar decisões porque não sabemos quem somos e porque não queremos viver com as consequências de decisões mal tomadas, para sempre.